Finalmente chegou o fim de semana. Camisa no ombro, short leve, chinelo no pé e bola debaixo do braço. Assim começa a carreira do jogador profissional de futebol de rua. O menino desce a rua fechada com a missão de convocar os “atletas”. Logo sai o primeiro grito! A primeira contratação é feita e tem a missão de se juntar ao menino e andar pelo bairro, cada um de um lado da calçada, gritando os nomes e apelidos dos amigos que logo surgem nas ruas devidamente uniformizados. Camisa no ombro, short leve e pés descalços.

Hora de escalar os times. Nada de treinador, contratos pra assinar, e muito menos empresários. Tudo é resolvido com um simples par ou ímpar. Para evitar a famosa “panelinha”, sempre é tirado ou pelos craques da rua, ou pelos pernas de pau. Três jogadores pra cada lado, e o resto forma o time de “outra”. Os tradicionais 90 minutos, são trocados por um rápido 2 ou 10.

O estádio também é único. O gramado verde dá lugar ao asfalto cinza, a arquibancada dá lugar as janelas da vizinhança, nada de marcação de cal e a bola só sai pra linha de fundo, ao atravessar a linha da trave que a essa altura são formados por dois chinelos cuidadosamente espaçados com três passos de um pé 39.

Luzes dos postes acessas, time sem camisa contra time de camisa e dá-se início a partida. Bola rola e a cada drible vem uma zoação dos amigos que esperam sua vez. A exemplo de Pelé, que tabela com as pernas dos adversários, os meninos usam as paredes das casas para tocar e receber na frente, fazendo o famoso 1-2 e somar mais um jogador ao seu time. No meio da partida se escuta um sonoro “PAROU!”. Todos param, e dessa vez não por uma falta, já que “parou” é sinônimo do apito do juiz. Simplesmente algum pedestre cruza o campo de jogo e o fair-play é sempre respeitado nesse tipo de competição. A pausa é aproveitada pelo time com a bola, que somente ao se olhar, sem dizer uma palavra já ensaiou uma jogada para fazer assim que a bola voltar a rolar. Pedestre sai do “campo”, jogada feita e gol do time sem camisa, que não da nem tempo de comemorar, pois a rua é íngreme e a regra é clara: “Quem chuta, busca.”

O jogo volta a rolar e novamente é paralisado para que alguém coloque a mão na bola. Goleiro? Não. Ela ficou presa debaixo do carro e nesse caso, tá liberado. Devidamente retirada ela volta a rolar até que é necessária uma substituição. Lembrando que substituições só acontecem em dois casos: Lesões, que longe de ser um estiramento na coxa e ligamento cruzado, e sim uma unha perdida ou o tampão do dedo. Ou com um grito da mãe mandando entrar. Nesse caso, não há discussão. E foi a dita cuja que gritou. Pro alívio dos meninos não era a mãe do dono da bola, então, jogo que segue.

Um campeonato inteiro é disputado no mesmo dia, o dia inteiro, afinal, está em jogo não uma “Orelhuda”, como é chamada a taça da Liga dos Campeões, e sim um refrigerante dois litros bem gelado, que acaba sendo dividida entre todos presentes, independente do time vencedor. Porque o que importa é a diversão e os sorrisos dos meninos com pés encardidos e corpos suados que se zoam ao fazer o papel de comentaristas dos seus próprios jogos.