Senhor,

Quando aquele moleque pegava a bola dente de leite, comprada no mercado por alguns reais, ou até mesmo que tenha ganhado em um dia de Cosme e Damião, aquela bola marrom e estranha que todo mundo já jogou, que esquecíamos que ficava oval quando sentávamos em cima para esperar a galera chegar e sempre vinha alguém gritando “Oooowwwww senta não, fica oval!!!!”.

Ele partia com ela pra rua, debaixo do braço, sem ter almoçado ao voltar da escola, ouvindo a mãe gritando que era para não se sujar. Ele moleque como já fomos também, com sua bola, não pensa em 4-4-2 ou 3-4-3, com pontas que atacam e bla bla bla…

Ele queria “dibrar”, “pedalar”, “fazer gol”… afinal, futebol pra ele é isso, e por muitos e muitos anos isso era o que realmente importava, gostávamos de ver o malabarismo entrar em campo e fazer arruaças em campo, partir pra cima com dribles desconcertantes e humilhar o adversário com puro talento. Hoje, se alguém brinca com a bola na frente de um adversário, pode tomar até cartão!

Em algum momento o que nos fez ganhar o mundo virou crime, não se pode mais partir pra dentro, não pode mais dar elástico, não pode, não pode e não pode… Tem arbitro de vídeo que pega a leitura labial do jogador olhando e dizendo “Vem!”.

Senhor,

Onde foi que um engravatado sem talento, que provavelmente tomou muitas canetas na escola, conseguiu vencer o futebol arte com uma caneta que nem é essa caneta que tanto falamos, a velha bola entre as pernas, a caneta de tinta, que assina a lei que proíbe ser feliz em campo.

Eu sou das antigas, ainda curto muito ver a copinha, cheia de moleques que assim como nós queriam partir pra dentro, dar lambreta e comemorar gol com coreografia ensaiada. Eu quero ver gol, mas quero que o que levou a isso tenha sido fantástico como o gol.
Que o menino Ney, ultimo remanescente da categoria e “brasileirice”, não nos deixe sem seus “dibres”, assim como o eterno bruxo, R10, nunca deixou.

Amém!