A tradição que marca a nossa história conta que um anjo, o melhor e mais bonito de todos, ora tomado por uma vaidade sem precedentes, rompeu com a ordem da criação divina – que se caracterizava pela coletividade – e se fez indivíduo. Com as asas pesadas pela vaidade, o anjo despencou do paraíso para nunca mais retornar.

Hoje, substituímos os valores da coletividade pela hipervalorização do indivíduo. Aprendemos a chamar o egoísmo de autoestima, tratar a falta de respeito ao próximo como autenticidade, humildade se tornou sinônimo de pobreza e, por fim, a vitória pessoal como virtude única e relevante. Esta realidade atinge todos os campos da sociedade.
No futebol não seria diferente.

A nova geração de torcedores e amantes do esporte bretão acompanha e se satisfaz, agora, com um racionalismo de análises metodológicas dignas de titulação acadêmica. Apelido aqui de “geração banco de dados”.

Esses movimentos de análise, que descartam a paixão e a cegueira única, legitima, possível e indelével que o futebol proporciona a quem se permite amar, substituiu inocência consciente pela polarização das interpretações matemáticas.
Os números de um jogador possuem o peso de um carro de F1 que, constantemente, segue a perseguir números.
(Técnico, mecânico, previsível e sem alma.)

Assim, surgem as comparações, inventadas ao sabor de quem discursa, que defende e descarta sem o menor senso de culpa ou de ridículo. Enquanto isso habitava o campo de quem está nas bancadas, ótimo.

A questão é que de meia década para cá a volúpia por números contaminou os jogadores de tal forma que os anjos que nos encantavam, hoje, já parecem acusar o peso de suas asas. Primam pelo indivíduo, pela vaidade de entrar para a história pelos seus feitos, seus números.
(Técnicos, mecânicos, previsíveis e sem alma.)

Percebam:
Semana passada o CR7 fez um golaço de bicicleta. Logo apareceram comparações dizendo que o do Ibra foi mais bonito. Ora o Messi dribla, com a graça, leveza e sobriedade de um patinador no gelo, e desabrocham os que afirmam ser ele menor do que Dieguito. Prontamente, então, bradam que o melhor de todos foi o Pelé. (Ufa! Haja paciente.)

Não há em momento algum o deleite do que se vê. O mundo, para a “geração banco de dados” é um tribunal onde se julga o mérito do indivíduo e que o futebol (réu eterno) é mero cenário de crime.

Vivemos e vemos uma geração incapaz de apreciar qualidade. Nada, absolutamente nada vos parece digno de reconhecimento sem que haja uma hipótese de comparação e depreciação do feito.

O futebol virou, para a “geração banco de dados” uma análise constante de estatística e de relações entre passado/presente, maior/menor; grande/pequeno.

O jogador que quer ser campeão da Copa do Mundo, o quer, pois, acredita que dessa forma será mais fácil ser eleito o melhor do mundo. O outro, que entra em campo para ajudar sua equipe, compreende que desta forma estará mais perto de bater recordes e ser o artilheiro da competição. O terceiro, quer vencer com sua seleção, pois acredita que este é único título que falta para ser considerado tão grande quanto o outro. Há ainda aquele que prefere deixar o belo coletivo para se fazer indivíduo em outros “paraísos” (ou inferno).

E assim o peso das asas desses anjos tornam-se fardo incompatíveis com a leveza e a qualidade que poderiam encantar – ainda mais – caso se permitissem habitar (ainda que por um momento) o campo da coletividade.

Por aqui, me resta torcer para que um dia veja novamente o destaque individual – sem falsa modéstia – seja o símbolo de uma coletividade, como já vimos Pelé, Zico, Michel Platini, Johan Cruyff, Romário, Van Basten, Maradona, entre outros tantos que nos faziam acreditar no divino que habita os relvados pelo mundo.

Quem sabe? Quem sabe seja utopia minha para esses tempos modernos? Ou quem sabe seja, talvez, somente, a minha vaidade?