Respira, menino… respira que é só futebol. Repito: Só futebol!

Triste daquele que se deixa levar por contextos maiores e busca associar as mazelas políticas e descasos históricos, próprios e característicos da História com um mero esporte que tem por principal objetivo divertir.

Por mais que pareça provocação, o meu amor pelo futebol perpassa por esse sentimento e certeza: É só futebol!

Não que eu passe ileso aos fracassos. Mesmo porque sou torcedor do América e isso já explica grande parte do meu amor e da minha resistência pelo esporte bretão. Nas derrotas, aliás, assumo a tristeza inexplicável que sinto, mesmo sabendo que não tenho nenhum motivo para isso. Eu sinto!

O que eu quero dizer é que nosso sentimento com o jogo e a identidade brasileira é algo confuso. E é exatamente aí que mora a ideia de que uma das grandes coisas do nosso país é o  futebol.

Ele é a mentira mais verdadeira que aprendemos a respirar, ele não muda nossa vida, e nem tampouco acaba com nossa paz. Em longo prazo, ele é – de fato – a alegria da vitória e o peso da derrota. Ambos com a devida profundidade.

São profundos, meus amigos. (Mas não esqueçam: São falsos).

É um grande palco de teatro que nos acostumamos a nos colocar, e – por regra – quando vemos uma grande peça, mergulhamos inevitavelmente naquele sentimento.

O futebol é nossa ilusão preferida e necessária.

Alguns preferem novelas ou outros esportes. Na verdade, as pessoas preferem qualquer coisa que os tire de sua vida por um minutinho, por um momento, criando algo que não é delas.  Emprestam sentimentos, se entregam a paixões, que de alguma forma dê luz, dê trevas, que permita o seu coração enlouquecer de alegria e de tristeza.

O futebol, neste caso, é o máximo de um poder simbólico aplicado.

Se pudermos pensar em um campo de futebol em que estão jogadores, dirigentes, torcedores ao mesmo tempo, este campo é a sociedade brasileira. Imensamente reconhecido e usado como ferramenta da política, economia, moda, meio acadêmico. É poderosamente rico de significados e sentidos, ainda que pareçam sem sentido em nossa vida.

Emocionado, Rodrigo completa o caso: – “Ao ver um menino chorar, por exemplo, eu me lembrei de 1990. Ali foi eu que chorei.  Lembrei de Romário em 1994, segunda vez na vida em que descobri o sentido de um herói, paradoxalmente o primeiro também era do futebol, foi Renato Gaúcho contra o Atlético Mineiro.”

Mas isso é o de menos, moçada. O importante é: eu não só entendo como sinto a dor da derrota, mas tenho perfeita noção de que ela é ilusória e vai nos remeter a sentimentos, a vestígios de história em nosso jeito de pensar e agir.

Querem ver algo engraçado?
Nas redes sociais, imediatamente após a derrota brasileira, vieram discursos de revolta, racismo, xenofobia (muito tristes aliás), mas passados cinco minutos começam a pipocar outra coisa: a pilhéria, a zoação…  Todos os tipos de piadas foram criadas, – tão rápida quanto os gols da Alemanha em 2014.

Lembrei automaticamente de Gregório de Mattos Guerra, em um Brasil Colonial, que quando se via em uma situação que não tinha mais jeito, apelávamos para o escárnio. Luiz Felipe Baeta Neves conta de como nossos compatriotas utilizavam de todo tipo de pilhéria para caçoar dos padres, políticos e até dos representantes do tribunal do Santo Ofício.  Todos os poderes instituídos direcionados eram marcados como alvo deste ácido fatal, que brinca com nossas dores e tragédias.

Hoje se passar um bumbo batendo seco, e um povo quieto andando, todos vão entender, mas pouco a pouco o sentimento de revolta, tristeza se esvai.

– “Que história é essa de bumbo, tio Braga?”, pergunta a meninada.

É que em um desfile da Mangueira campeã do carnaval, outro elemento lúdico recorrente em nossa sociedade, carro alegórico bateu em um fio e matou a sambista eletrocutada. No desfile das campeãs, em homenagem, a Mangueira desfilou em silêncio, somente com a batida seca do seu surdo de primeira. Hoje, se esse surdo batesse, todos iam entender.

Hoje é dia de ser leve. De sorrir com o futebol pelo simples fato de ser futebol. Com Brasil ou sem Brasil, com Copa ou sem Copa, a paixão (por ser ilusão) continua. Ou as flores só são flores na primavera? Há de se ter sorriso, humor…

Quanto ao futebol ele continua e vale agora tanto quanto sempre valeu: nada. Isto para a grande maioria dos que o acompanham, e por isso mesmo é tão bom, é tão gostoso celebrarmos, chorarmos.

Discursos de revolta, de xenofobia, racismo, não. Esses não valem a pena, apesar de para mim, ser também um retrato de sentimentos que a sociedade brasileira acaba escondendo embaixo de um colchão, como aqueles que escondiam as economias dos vovôs. Mas isso é caso pra outra página. Não aqui, pelo menos por enquanto.

É pra frente que se anda, rapaziada. Daqui a quatro anos estaremos novamente espalhados por bares, acreditando e criando as nossas mentiras para que possamos ludibriar a nós mesmos. Felizes, amigos, desesperados, tensos, otimistas… e sobretudo, históricos, – ainda – como os únicos pentacampeões mundiais desta “bagaça”!