Aristófanes (V a.C.) conta um mito grego, que remonta a criação do homem, originalmente formados com duas cabeças, quatro pernas, quatro braços, características que teria dado ao homem a velocidade e a habilidades de deslocamento únicas dentre os seres viventes. Assim éramos completos. Até o homem se entender suficiente e significativamente desenvolvido e, por isso, desafiarem os deuses e subirem aos céus para lutar, destronar e ocupar o lugar dos deuses.

Naturalmente derrotados, os homens foram punidos com a fragmentação do corpo e condenados a percorrer a vida atrás de sua metade. Platão, em “o banquete”, sugere essa busca da metade como a ânsia – ou desejo – de um outro ser que nos complete e, por ser a parte de nós fragmentada pelos deuses, não há outra saída senão amarmos aquilo que desejamos.

Obra “O Banquete” de Platão

O amor sempre esteve presente nas ações do homem. Ao longo do tempo, ganhou nomes e descrições – rasas ou rebuscadas – ou ainda formas e variedades, mas nunca deixou de ser amor. Nós (do Trave), como tantos outros por aí, muitas vezes, encontramos nossa metade no futebol. A graça, a alegria, a brincadeira, o choro, tudo isso, para os que amam o futebol, é amor.

Das arquibancadas, aprendemos a admirar os encontros platônico das metades e que, talvez por isso, alçaram à categoria de mitos do futebol.

Pelé e Garrincha, Puskás e Di Stefano, Bobby Charlton e George Best, Cruyff e Keizer, Maradona e Valdano, Gullit e Van Basten, Zico e Sócrates, Romário e Bebeto… encontros de amor que os deuses do futebol concederam aos humanos como obras de arte para exemplificar que até mesmo ao brilhantismo e ao reconhecido talento, cabe complemento.

Bebeto dizendo “Eu te amo!” para Romário na Copa do Mundo de 1994

Pois bem. Vimos, admiramos, reconhecemos, mas não aprendemos enfim.

Parece-me, que em algum momento, voltamos a desafiar os deuses, bebemos da fonte narcísica e nos afogamos no culto ao indivíduo. O culto pelo ímpar, pela metade que se vê como todo, pelas chuteiras coloridas e personalizadas, pela supervalorização dos prêmios individuais em um esporte que se fez (e se faz) pelo coletivo, pelos cortes e pinturas no cabelo capaz de identificar a persona de longe. Feios, incompletos, vazios de calor, mecânicos e sem amor.

Hoje, com Platão deixado de lado e livros de auto-ajuda (ou Bauman, com o Amor Líquido) transbordando nas prateleiras, entendo a razão de voltar a camisa do avesso na premiação de um título e buscar fazer do seu nome algo mais significativo do que o símbolo de um clube que ora conquista a glória. Entendo e “Eu estou aqui” de um certo personagem. Entendo as rabugices de quem briga para cobrar uma falta e ter mais tempo de destaque no telão do estádio. Entendo os números (que em tempos quase mitológicos, “versavam“ entre o 1 e o 11) das camisas associados aos nomes em siglas.

Neymar, Cavani e Daniel Alves discutem para cobrar pênalti

Mas também entendo as perguntas vazias, simplistas, polarizadas e pragmáticas: “quem é o melhor cobrador de faltas?”; “quem é o melhor driblador?”; “quem tem o melhor número dessa temporada?”.
Admiradores de obras ainda não concluídas. Como quem julgasse os traços de Da Vinci ainda no esboço da Mona Lisa del Giocondo.

O futebol de hoje me faz entender os arremates certeiros de Narciso e Bauman, mas sigo platónico preferindo a busca, a metade, a trave e o amor de um esporte coletivo que um dia, como num mito grego, nos encantou e nos fez completos.