Tenho pra mim que há um espírito que vagueia pelos gramados brasileiros, que teima em ser imortal e resistir a finitude ou a transcendência da própria alma.

Para esse espírito, bom de bola, cabe incorporar, de quando em vez, migrando de corpo para corpo, como quem percebeu desde sempre que o belo e a energia vital futebol, para ele já não mais carnal, o conduz à carne de outrem, onde possui o abrigo em que, igualmente, se fez digno de tal arte.
Esse espírito prolonga, perdura, celebra e eterniza-se nos amantes do “esportes bretão”.

Explica-me, então, tu, senão por possessão divina, vermos Zico, encantado, ainda hoje, nos gramado de fim de ano. É ele. O espírito brincado nas festas finais.

Explica-me, então, tu, senão por possessão divina, vermos Romário, encantado, ainda hoje, nos campos do Jacarezinho. É ele. O espírito brincando de ser criança.

Explica-me tu, então, como em gingas, quase dança, quase transe, num drible improvável de quem começa a carreira e mostra uma maturidade sobrenatural.

É ele. O espírito. Se fazendo menino e insistindo em renovar-se. Explica-me tu, então, a certeza de que em “corpos infalíveis” como os de Zé Roberto, Paulo Baier, Ricardo Oliveira e outros tantos que de quarenta passaram, vimos agilidade de alma, que passava como um resto de nuvem e nos fazia torcer que aquele momento não chegasse ao fim.

Sem perder o brilho, para ocuparem o pra sempre e seguirem direto aos braços dos Deuses do futebol.
É ele. Só pode ser ele. (insisto)
Em vida.Apaixonado pela bola e, portanto, eterno.
Pois está, condenado ao encantamento, amarrados às chuteiras e preso às quatro linhas.